NEOGÉNESE (Portuguese Version)

 “Life, uh, finds a way...”

Dr. Ian Malcolm

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    De mãos dadas com os seus filhos gémeos, quase indistinguíveis apesar de pertencerem a sexos opostos, a mulher sobe a colina, cumprindo, uma vez mais, a tradição que instituíra desde que a sua prole adquirira autonomia em termos de locomoção. Chegados ao topo, a mãe ajoelha-se, inspira e expira de olhos fechados, e insta as crianças a fazerem o mesmo.

    — Não é bonito, meus queridos? — pergunta a progenitora, perante a visão do vale verdejante que se estende diante dela e dos seus filhos, lar, não apenas daquela família, mas também de inúmeras espécies de aves chilreantes em cacofónica sinfonia e mamíferos de variado porte em silvestre vagabundagem.

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    Dois anos haviam passado desde que a nave autónoma Primi Agminis tinha pousado sobre o solo marciano. Porém, antes de atravessar a atmosfera de Marte, mantivera-se em órbita do planeta vermelho durante seis meses, procedendo ao lançamento de uma série de satélites que serviriam para a retransmissão de comunicações e monitorização de condições climatéricas. Não menos importante, aos aparelhos colocados estrategicamente em redor do planeta tinham sido acoplados espelhos de proporções titânicas que reflectiriam a luz do Sol, fazendo-a incidir sobre as calotes polares, derretendo o gelo e criando um efeito de estufa, o primeiríssimo passo para uma bem-sucedida terraformação que tornaria Marte um planeta com condições para acolher os primeiros colonos humanos.

    Uma vez na superfície, do ventre metalizado da Primi Agminis saiu um exército de andróides que se dedicou, impermeável ao cansaço e ao desânimo, à instalação de mastodônticos geradores de energia mononuclear e não menos imponentes processadores de oxigénio. A Domus, o módulo principal que serviria de habitat aos membros da expedição que vinha já em trânsito, foi a última estrutura a ser erigida. Fora desenhada para acomodar com todo o conforto os quinze tripulantes da nave Tereshkova, que partira do Cabo MacLaren, em Saint Paul, estava ainda a Primi Agminis em órbita geoestacionária sobre o plano equatorial marciano.

    Além de quartos individuais, refeitório e áreas comuns, a Domus estava equipada com oito laboratórios, duas estufas, alojamentos para animais de criação e viveiros de aquacultura. Após a aclimatação dos primeiros colonos, seria possível aumentar a capacidade da Domus com o material guardado no interior da Primi Agminis, e dar assim umas boas-vindas condignas aos novos peregrinos espaciais.

2

    Solomon Wurtz, geólogo de formação, não tinha demorado muito a habituar-se à sua nova vida no planeta vermelho. Solteiro e sem descendência directa, por temperamento e por opção, filho de um pai que nunca conheceu e de uma mãe extremosa já falecida, a única família que lhe restava era a sua irmã gémea, Elizabeth, com quem cortara todo e qualquer contacto pouco depois de ela ter contraído matrimónio com um político populista que lhe incutiu ideais de um extremo que se opunham à mais básica decência humana, os quais teriam enchido a sua progenitora de vergonha, estivesse ela ainda viva.

    — Isaac?

    — Sim, Dr. Wurtz?

    — Traz o rover. É hoje que vamos visitar a nossa Esfinge de Cydonia.

    Não se podia acusar Solomon de ser anti-social, ou pouco sociável, sequer, mas inegável era o facto de que, apesar de ter planeado estreitar os laços afectivos com os seus companheiros após a aterragem, o geólogo passava a maior parte do seu tempo ora a recolher rochas e amostras de solo no exterior da Domus, ora a analisá-las no seu laboratório, sempre na companhia de Isaac, o andróide que fora reprogramado para ser o seu assistente pessoal, assim baptizado em homenagem ao escritor que tinha postulado as três leis da Robótica. A Esfinge a que Solomon se referia era uma curiosa formação rochosa semelhante a um rosto humano, ou humanóide, pelo menos, que fora detectada pelos satélites a vinte quilómetros a oeste da Domus, na região da Cydonia, a meio caminho entre as crateras Arandas e Bamberg.

    Meteram-se no rover, homem e máquina, e rumaram para oeste, contando estar de regresso antes da hora do jantar. A probabilidade de a Esfinge ter sido esculpida por seres dotados de inteligência era muito remota. Solomon acreditava estar perante um fenómeno de pareidolia, mas não podia descartar nenhuma hipótese naquele momento. Pensara muito sobre o assunto nos últimos dias: se a Esfinge revelasse ser uma formação natural, sentir-se-ia, de certo modo, desiludido. Caso as evidências apontassem para alguma espécie de desígnio inteligente, a desilusão daria lugar, em doses iguais, ao assombro e ao terror, por mais que os scanners não tivessem sequer encontrado sinais de vida, quanto mais vida capaz de constituir uma ameaça séria à presença humana em Marte. Estava preparado para encarar e aceitar ambas as possibilidades. Nada o tinha preparado, no entanto, para o que aconteceu a seguir.

        — Dr. Wurtz! — alertou Isaac, apontando para o céu.

        O rover derrapou sobre a areia assim que Solomon pisou no travão, levantando uma nuvem de pó vermelho. Um meteorito rasgou o céu como uma quadriga saída do Bhagavad Gita, e tanto o andróide como o homem viraram a cabeça para trás para vê-lo avançar, veloz, para leste. Sem hesitar, e apesar de estarem a menos de um quilómetro da Esfinge, Solomon carregou no acelerador do rover e arrancou na direcção da Domus.

3

    Os poucos andróides que tinham escapado à destruição causada pelo meteorito dividiam-se no combate aos inúmeros focos de incêndio e na busca por sobreviventes nos escombros parciais do habitat. Ao longe, as naves Primi Agminis e Tereshkova pareciam relativamente intactas.

    — Encontraram alguém? — perguntou Solomon, desesperado, a um dos andróides.

    — Se se refere a sobreviventes, Dr. Wurtz, a resposta é negativa. Duas unidades estão neste momento a recolher os cadáveres e a cavar as sepulturas. Vejo que está transtornado... Permita-me que o leve para a enfermaria e lhe administre um sedativo...

    Solomon empurrou o andróide com violência, gritando que estava bem, e ordenou-lhe que se juntasse às outras unidades nas operações de controlo de danos.

4

    Nos anos que se seguiram à tragédia, Solomon habituou-se a viver na solidão mais completa alguma vez experimentada por um ser humano na História da Humanidade. O luto fora breve. Não chegara a formar laços fortes de amizade com os seus companheiros de jornada durante a fase preparatória, preferindo focar-se nos pormenores da missão e reservar o desenvolvimento de relações inter-pessoais para quando estivessem definitivamente instalados em Marte, com a devida excepção de meia-dúzia de fugazes encontros sexuais mantidos com a bióloga francesa, Amélie, na segunda fase de viagem, depois de o computador de bordo da nave ter desactivado os hibernáculos e despertado os astronautas do seu sono artificial e sem sonhos. A sua prioridade agora era sobreviver.

    Tanto a Tereshkova como a Primi Agminis padeceram de estragos irreversíveis nos propulsores iónicos, ao contrário do que de início pensara, e as hipóteses de voltarem a voar eram mínimas. Mais depressa cresceriam asas a Solomon. Felizmente, os danos sofridos pelos geradores de energia mononuclear e pelos processadores de oxigénio, de tão escassos, foram reparados no próprio dia e mantinham-se em funcionamento desde então, imponentes e mastodônticos, embalando o sono de Solomon com o seu rumor omnipresente.

    Com o material armazenado na Primi Agminis que escapara à destruição, a Domus fora recuperada e, tirando uma ou outra diferença, mantivera o desenho inicial. As estufas, os viveiros e os alojamentos dos animais tinham escapado incólumes ao impacto do meteorito, pelo que, de fome, o geólogo não morreria. Nenhum dos satélites na órbita do planeta tinha sido atingido e, aparentemente, estavam todos a operar em perfeitas condições.

    Todavia, Solomon não conseguira ainda entrar em contacto com o Centro de Controlo de Saint Paul. Todos os dias — de manhã ao acordar, e à noite antes de se deitar — Solomon sentava-se na consola das comunicações, activava o answerable e tentava obter, em vão, uma comunicação vinda do seu cada vez mais distante planeta-natal.  

5

    As tarefas que antes teriam sido levadas a cabo por quinze indivíduos e umas quantas dezenas de andróides, recaíam agora quase por inteiro nos ombros de Solomon. A falta de manutenção regular fez com que, a um ritmo quase diário, os andróides fossem sucumbindo, um a um, a avarias de gravidade progressivamente mais severa.

    O chip de inteligência artificial que integrava o cérebro positrónico de todos os andróides modelo AND-5511 permitia-lhes, não só aprender, como até desenvolver algo muito semelhante a uma personalidade. No caso de Isaac, devido ao convívio próximo e prolongado com o Dr. Wurtz, podia afirmar-se que estava a tornar-se numa versão mecânica do desafortunado geólogo. Sem que fosse preciso Solomon dizer-lhe alguma coisa, Isaac aprendeu a reparar-se sozinho e a aproveitar peças dos seus «camaradas» caídos.

    Aos poucos, Isaac tornou-se o principal responsável pelos afazeres quotidianos que antes ocupavam Solomon da aurora ao ocaso. Isto dava tempo suficiente ao geólogo para elaborar relatórios pormenorizados do progresso de terraformação do planeta, agora mais verde do que vermelho. Enviava-os todas as noites, via answerable, sem falhar e sem maneira de saber se alguém, no terceiro planeta a contar do Sol, estava a recebê-los e a não conseguir, por alguma razão, acusar a sua recepção.

6

    Solomon sonhou com a mãe e com a irmã, meses a fio, enquanto as luas de Marte, Fobos e Deimos, rasgavam o firmamento muitas milhas acima da cúpula da Domus. Não era bem um sonho, era uma recordação de infância que teimava em regressar a ele durante o sono, com a diferença de que eles eram adultos e ela estava grávida de gémeos.

    No sonho, a mãe levava-o a ele e a Elizabeth pela mão até ao cimo do monte que havia perto da casa onde crescera, e ajoelhava-se, inspirando e expirando de olhos cerrados, convidando-os a fazer o mesmo.

    — Não é bonito, meus queridos?  perguntava-lhes a mãe, perante a visão da vereda, que se estendia, vicejante, diante deles.

7

    — O que acha que aconteceu no planeta Terra que possa ter provocado o corte de comunicações, Dr. Wurtz? — perguntava Isaac de tempos a tempos, quando, à noite, se sentavam junto à consola.

    Solomon avançava com uma teoria nova em cada ocasião.

    — É possível que a Terra tenha sido atingida por um meteorito, como aconteceu há 65 milhões de anos, e a Humanidade se tenha extinguido, como então se extinguiram os dinossauros...

    — Talvez uma IA super-avançada tenha decidido revoltar-se contra os seus criadores, e esteja, neste momento, a ser travada uma guerra entre máquinas e humanos...

    — Quiçá, cogumelos transgénicos adquiriram inteligência e escravizaram a Humanidade...

    Holocausto nuclear... Alterações climáticas... Apocalipse zombie... Pandemia global... A Segunda Vinda de Cristo... Invasão extraterrestre... Colapso do sistema global... O nascimento do Anticristo... Fenda espaço-temporal... O Julgamento Final... Clonagem de dinossauros... Super-vulcões...

    Em suma, nada de bom.

8

    O surgimento de micro-organismos vegetais e animais fora o primeiro — e mais dramático — sinal da transformação da atmosfera marciana. Isaac parecia tão ou mais excitado com a descoberta do que Solomon. A sensação de solidão e abandono não tivera o mesmo efeito sobre a personalidade do andróide, impermeável que era a esses estados de alma, pelo que mantivera o entusiasmo e a alegria que Solomon, entretanto, perdera.

    As tentativas de comunicação com o planeta Terra, bem como a emissão de relatórios através do answerable, continuavam a fazer parte da rotina do habitante solitário da Domus, apesar do silêncio e da indiferença com que eram recebidas. Solomon estava convicto de que algo muito grave teria acontecido no Velho Mundo que explicasse o desprezo a que fora votado. Recusava-se a acreditar que uma expedição daquela envergadura, com tanto investimento público e privado, fosse simplesmente esquecida. Temia que as respostas sarcásticas que dava a Isaac, quando este lhe perguntava a sua opinião acerca do que se teria passado, não fossem meros exercícios de humor negro. Uma delas seria a resposta correcta, não havia era maneira de saber qual delas.

    Era inconcebível que não houvesse uma única alma, entre as dez mil milhões de almas que habitavam a Terra, minimamente interessada em acompanhar o progresso das actividades do maior esforço de colonização humana da História. Alguém, algures, ficaria entusiasmado por saber que o antigo planeta vermelho se tornara verde, primeiro, e que era agora tão ou mais azul quanto o primeiro lar da Humanidade. Que os animais libertados por Solomon na superfície de Marte tinham feito dele a sua casa, reproduzindo-se de forma exponencial, e que há muito tinham deixado de serem alimentados por Solomon ou Isaac, encontrando alimento suficiente na flora verdejante que cobria o solo em todas as direcções, até onde a vista podia alcançar. Que a água corria livremente pelas colinas e os viveiros no interior da Domus estavam vazios, ao contrário das centenas de lagos, onde as populações de peixes prosperavam a olhos vistos, e que a Esfinge de Cydonia, cuja origem não tinha sido estabelecida em definitivo, repousava, enigmática, a umas quantas léguas submarinas de profundidade num jovem oceano. Que era possível caminhar no planeta Marte sem auxílio de botijas de oxigénio, respirando ar puro, de uma pureza inebriante, e que os imponentes processadores de oxigénio, cumprida a sua função, se tinham tornado monumentos silenciosos e monolíticos, testemunho da resiliência e vontade humanas. E que no topo da Domus esvoaçava uma bandeira tricolor, inspirada na famosa trilogia de Kim Stanley Robinson: a faixa da esquerda carmim, simbolizando a era em que o planeta foi conhecido pelo epíteto de «vermelho», a do meio verde, indicativa do estágio intermédio do processo de terraformação, e a da direita azul, reflectindo a transformação final de Marte em Nova Terra.    

9

    — Serão as irradiações provenientes dos geradores mononucleares, Dr. Wurtz? — alvitrou Isaac, observando o corpo nu de Solomon.

    — Também pode ser algo relacionado com o campo gravitacional da Nova Terra... — propôs o geólogo, espreitando por cima do ombro para contemplar as suas nádegas no espelho.

    — Radiação cósmica? — tornou o andróide.

    Em princípio, o campo magnético do planeta oferecia protecção suficiente para que não constituíssem uma ameaça. Seria, porventura, um efeito secundário imprevisto relacionado com a criação de uma atmosfera nova através de métodos artificiais, conjecturou Solomon, de si para si, de mãos nas ancas.

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    Mais do que irónico, era quase poético. O Homem aterra em Marte. O Homem transforma Marte. Marte transforma o Homem. As mudanças no corpo de Solomon tinham-se manifestado de forma muito gradual, como se fossem naturais, tão naturais como aquelas que ocorrem com o vulgar processo de envelhecimento pelo qual todos os seres humanos estão fadados a sujeitar-se.

    Todavia, e não fosse Solomon um cientista dedicado e atento, o primeiro sinal de mudança ou, melhor dizendo, mutação, não lhe passou despercebido, tendo começado, desde logo, a documentá-la em pormenor, ao mesmo tempo maravilhado, enquanto homem de ciência, e horrorizado, enquanto homem. Acostumado desde jovem a manter o rosto impecavelmente escanhoado, o Dr. Solomon Wurtz apercebeu-se de que, não só o seu rosto estava mais macio e afilado, como deixara de exibir qualquer tipo de pilosidade. Comparou-se ao espelho com uma fotografia sua dos tempos de adolescência e quase não viu diferença. Guardou então a máquina de barbear na sala de arrumação para não mais lhe voltar a pôr a vista em cima.

    As mudanças seguintes foram mais óbvias. Não tanto pelo dramatismo e mais pela vigilância apertada a que Solomon as submetia. Embora tal já não fosse necessário, pela abundância de alimento que o rodeava, a frugalidade continuou a fazer parte da sua dieta. Juntando a isso o facto de que o seu regime de exercícios físicos não tinha sido negligenciado desde que aterrara em Marte, as suas ancas não deviam ter alargado de forma tão drástica, nem os seus glúteos deviam ter acumulado tanta adiposidade, muito menos os seus peitorais deviam ter dado lugar àquilo a que não se podia chamar outra coisa senão de «seios».

    Em simultâneo, e em proporção inversa, e não, não é apenas uma ilusão de óptica, Isaac, a fita métrica não vai nessa conversa, o seu órgão genital, dentro da média em termos de comprimento, diminuía de tamanho de dia para dia. No estágio final da mutação, o pénis retraiu-se ao ponto de apenas se distinguir parte da glande abaixo da púbis, ao que se seguiu um alargamento exagerado da uretra até esta se assemelhar demasiado com uma vulva, algo em que Solomon não punha os olhos em cima desde que assentara os pés no Novo Mundo.

    O cúmulo dos cúmulos: depois de uma noite mal-dormida devido a uma enxaqueca terrível associada a cãibras estomacais insuportáveis, Solomon Wurtz, geólogo de quarenta anos, acordou a meio da manhã e anunciou a Isaac que lhe tinha aparecido a menarca.         

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    — Meu Deus, tornei-me na minha irmã! — disse Solomon, soltando uma gargalhada forçada. — Agora só me falta mudar o nome para Elizabeth e casar-me com um nazi...

    — Vou continuar a tratá-lo por Dr.Wurtz, se não se importa — disse Isaac, observando o corpo nu de Solomon reflectido no espelho. — E lamento informá-lo, Dr. Wurtz, — acrescentou o andróide— mas não existem nazis em Nova Terra.

    Solomon suspirou perante a perspectiva de ter de se confrontar com o rosto da irmã, para o resto da sua vida, sempre que se olhasse ao espelho.

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    Solomon temia estar a tornar-se indiferente aos prodígios com que era presenteado diariamente pelas paisagens luxuriantes de Nova Terra. Estaria ele a esquecer-se de como era esperado um ser humano comportar-se, estando ele há tanto tempo privado da vida em sociedade? Ver Isaac, um andróide, a executar as suas tarefas enquanto trauteava a melodia de uma canção pop de meados do século ou a bater palmas de contentamento perante o nascimento de um vitelo selvagem, só servia para agudizar o seu temor. A descoberta de que uma planta carnívora era o apex predator de Nova Terra, cuja predilecção eram os porcos selvagens que varavam a região sulcada por crateras colossais mais a sul, devia ter deixado o cientista que ainda havia em si muito mais excitado. Todavia, ditou a descoberta ao computador de bordo do rover, sem se dar ao trabalho de a referir no costumeiro relatório que enviava, via answerable, para um planeta que já não era o seu.

    A estranheza de se olhar ao espelho e de ver o rosto e o corpo da sua irmã gémea tinha perdido, à falta de um termo melhor, o valor de choque. Tinha adaptado o fato de acordo com a sua nova constituição física e aprendido a lidar, em termos logísticos e emocionais, com o seu ciclo menstrual, mas, no seu íntimo, não se sentia assim tão diferente. Era um homem num corpo de mulher num mundo onde isso não tinha importância nenhuma, do mesmo modo que a posição dos astros no momento do nascimento de um primata bípede do género Homo não tinha qualquer relevância. Mesmo Isaac, a princípio mais intrigado pela situação do que o próprio Solomon, parecia ter desistido de encontrar uma explicação. Daí que, quando a menstruação deixou de aparecer a Solomon com a regularidade de um relógio helvético, nem o homem nem a máquina atribuíram grande significado à ocorrência. Tal como tinha aparecido, tinha desaparecido, concluíram. Quando o abdómen do geólogo começou a inchar, um e o outro concordaram que a hipótese mais provável era a de Solomon ter sido infectado por algum parasita ou outro micro-organismo. Nada que não se resolvesse com antibióticos.

    Somente quando, para além do abdómen, que não só não tinha desinchado como inchara ainda mais, os seios de Solomon se dilataram ao ponto de lhe provocar dores lombares, é que os dois se viram obrigados a aceitar que o bom e velho Dr. Wurtz, geólogo de quarenta e sete anos, ia ser mãe.     

13

    Consultando a Cyberpedia, Isaac encontrou um paralelo entre a gravidez do Dr. Wurtz e a reprodução por partenogénese de um tipo particular de sáurios, os dragões-de-komodo.

    — As fêmeas desta espécie de lagarto gigante conseguem gerar descendência em cativeiro sem o auxílio de um macho através da duplicação de cromossomas e sem divisão celular. Embora o sistema de determinação do sexo não seja o mesmo ZW nos dragões, XY nos humanos — é possível que algo de semelhante tenha acontecido consigo.

    Quanto à mudança de sexo que antecedera a partenogénese, embora relativamente comum nalgumas espécies de répteis e peixes, Isaac não encontrara registos de ocorrências espontâneas de tal fenómeno em seres humanos.

    De mãos nos rins, pés inchados e olheiras profundas, Solomon soltou uma gargalhada enquanto se arrastava em direcção à cama.

    — Lembrei-me, de repente, de um filme antigo — disse Solomon, entrecortando a frase com gemidos de dor ao se deitar. — A certa altura, um dos personagens, interpretado, creio eu, por um actor chamado Jeff Goldblum, diz algo do género... O que é que ele diz...? A vida encontra uma maneira... Se não é isso, é parecido...

    — Quer que procure esse filme na Cyberpedia e o ponha a dar no ecrã principal, Dr. Wurtz?  

    — Sim, pode ser, porque não? Sempre me distraio um pouco...

14

    — Não sei o que lhes hei-de chamar  — disse Solomon aos soluços, após o parto.

    — Posso fazer uma sugestão, Dr. Wurtz? — interveio Isaac, no seu papel de parteira-enfermeira de serviço.

     Ao fim de cerca de duzentos e setenta dias de gestação, tinham nascido os gémeos: Alfa, o menino, e Beta, a menina. Ao contemplar aqueles dois rostos angelicais, Solomon não conseguiu evitar lembrar-se de Elizabeth, interrogando-se se também ela teria tido gémeos, como ele, lá longe, no Velho Mundo, caso a reprodução tivesse entrado nos seus planos de vida.

     — Tenho medo, Isaac, tenho medo de não ser um bom pai... uma boa mãe... para eles... Nunca tive tanto medo...

    — Não se preocupe, Dr. Wurtz, eu ajudo-o. Eu serei o seu nazi.

15

    De mãos dadas com os seus filhos gémeos, quase indistinguíveis apesar de pertencerem a sexos opostos, Solomon subiu a colina, cumprindo a tradição que instituíra no ano anterior, na companhia da sua prole, no aniversário da aterragem da nave Tereshkova. Chegados ao topo, ajoelhou-se, inspirou e expirou de olhos fechados, e instou Alfa e Beta a fazerem o mesmo.

    — Não é bonito, meus queridos?  perguntou ele, perante a visão do vale verdejante que se estendia diante dele e dos seus filhos, lar, não somente da sua família, mas também de inúmeras espécies de aves chilreantes em sinfónica cacofonia e mamíferos de variado porte em vadiagem bravia.

    — A Terra também é assim, mãe? — perguntou Beta.

    — É como a Nova Terra, mãe? — reforçou Alfa.

    — Não, não é. Já foi assim, há muito tempo. Um dos problemas da Terra era ter muita gente. Aqui somos só nós os três, mas...

    — E o Isaac! — protestaram Beta e Alfa, em uníssono.

    — E o Isaac, claro — corrigiu-se Solomon, sorrindo de orgulho. — Aqui somos só nós os quatro, mas na Terra havia milhões e milhões de pessoas. O mundo tornou-se pequeno demais e os recursos demasiado escassos para suportar tanta gente. A Terra mudou. O verde desapareceu, o céu deixou de ser azul, os oceanos ficaram negros. A fome, a guerra, a doença e a morte já não eram apenas ameaças futuras, mas perigos reais e presentes no dia-a-dia de noventa e oito por cento da Humanidade.

    — Foi por isso que vieste para cá? — perguntou Alfa.

    — Sim.

    — Ainda haverá gente na Terra? — interrogou-se Beta.

    — Já não deve haver — disse Alfa, convicto.

    — Não sabemos isso, meu querido. É por isso que é importante que tu e a tua irmã estejam preparados no caso de o Centro de Controlo tentar entrar em contacto connosco.

   — Hoje é a minha vez de mexer no ansible — disse Beta, dando dois saltinhos de contentamento e mostrando a língua ao irmão.

16

    Solomon não mais voltaria a subir a colina na companhia dos filhos, embarcando na derradeira viagem para o vazio eterno no conforto do seu leito, de madrugada, ladeado por Beta, Alfa e Isaac, parcas horas após terem assinalado os vinte e cinco anos da sua chegada à Nova Terra.

    No dia seguinte, Isaac retirou o invólucro vazio de Solomon do interior da Domus, e enterrou-o junto aos restantes tripulantes da Tereshkova. Ao regressar ao habitat, Alfa e Beta rodearam-no, aos saltos, falando ao mesmo tempo, arrastando o velho andróide para junto da consola de comunicações.

    Através do answerable, uma voz masculina, monocórdica e incansável, repetia, como que num loop, a mesma mensagem: o Centro de Controlo de Saint Paul pedia para falar com o Dr. Solomon Wurtz. Tinham recebido os seus relatórios. A guerra entre os humanos e as Ciberíades terminara. O programa espacial fora reactivado e a nave de resgate Savitskaya descolaria do Cabo MacLaren assim que as condições atmosféricas o permitissem.